Exame para identificação de diabetes mellitus na admissão e no desligamento do trabalhador: um olhar sob a perspectiva da epidemiologia do diabetes

Já é bem conhecido que o diabetes mellitus tipo 2 (DM2), associado a outros fatores de risco cardiovascular, como hipertensão, obesidade e dislipidemia representa um dos principais problemas de saúde pública no Brasil, assim como em outras partes do mundo (IDF). O que talvez não seja igualmente debatido é que estudos nacionais mostraram que 50% das pessoas identificadas com DM2 não sabiam ter a doença antes de participar dessas pesquisas. E pode ser nesse contexto que exames admissionais possam contribuir positivamente para o cenário epidemiológico brasileiro.

A relevância do DM na saúde pública pode ser avaliada através das estimativas crescentes do número de indivíduos afetados no nosso país e do impacto dessa doença e suas complicações para a saúde e sociedade.

Dados sobre prevalência de DM – baseados no teste oral de tolerância à glicose (TOTG) - representativos da população residente em 9 capitais brasileiras datam do final da década de 1980 (1). Estudo avaliou 21.847 indivíduos entre 30 e 69 anos, tendo estimado que, em média, 7,6% apresentavam DM. Estimativas mais atuais sobre a prevalência de DM no Brasil têm sido feitas pelo sistema de Vigilância de Fatores de Risco por Inquérito Telefônico (VIGITEL), implantado a partir de 2006 em 27 capitais. Em 2006, foi encontrada uma taxa de 5,5% de DM auto referida e em 2016 essa taxa atingiu 8,9% , sendo que nos indivíduos > 65 anos a taxa foi de 27% (2). Importante enfatizar que metodologias diferentes foram usadas no censo nacional de DM (diagnóstico baseado na TOTG) e no VIGITEL (DM auto referido), o que limita a comparação e interpretação de tendências das taxas. Porém, o estudo de Malerbi & Franco também coletou dados de DM auto referido na década de 80, mostrando prevalências de 3,2% e 11,6% nos grupos de 30 a 69 e >70 anos, respectivamente, que são menores que as encontradas no VIGITEL em anos mais recentes. Em Estudo de Coorte nacional, o Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto (ELSA-Brasil), que avaliou 15 mil funcionários, entre 35 e 74 anos de idade, de 6 Instituições de Ensino Superior Públicas no país, encontrou um percentual de DM alarmante de 19,7% (3). Esses números são preocupantes não só pelo seu impactante valor absoluto (4), mas porque, diante de uma perspectiva temporal, mostra a crescente prevalência de diabetes no Brasil.

A elevada prevalência do diabetes repercute em prejuízos à saúde por meio das complicações e incapacidades, bem como aumento de mortalidade principalmente por  doença cardiovascular. A considerável carga destas doenças foi evidenciada no Projeto sobre Carga Global de Doenças no Brasil (www.scribd.com/doc/2350704/Projeto-Carga- de-Doenca-Fiocruz), no qual o DM aparece como responsável por 5,1% e DCV por 31,3% dos anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (Disability-Adjusted Life Years - DALYs). Além da repercussão em saúde, o diabetes está associado com impacto econômico indesejado tanto em nível individual quanto para a sociedade (5).

Achado relevante dos estudos nacionais e das estimativas do IDF foi o de que cerca da metade dos indivíduos diagnosticados diabéticos desconhecia sua condição. Um dado relevante do estudo multicêntrico foi que cerca de 50% dos indivíduos desconheciam o diagnóstico (Malerbi & Franco, 1992). Cerca de 30 anos mais tarde, o ELSA-Brasil, identifica o mesmo percentual de desconhecimento da doença entre os indivíduos diagnosticados com diabetes nesta coorte (3).

Isso significa que os serviços de saúde têm diagnosticado casos de DM tardiamente, dificultando o sucesso do tratamento em termos de prevenção das complicações crônicas.

Vale ressaltar que a literatura dispõe de amplas evidências sobre a relevância do bom controle glicêmico e dos demais fatores de risco cardiovascular na prevenção das complicações. A interpretação dos resultados de grandes estudos epidemiológicos mostrou que o bom controle glicêmico é mais efetivo quando implementado precocemente no curso clínico do DM. Desta forma, o conhecimento científico aponta que a glicemia crônica e a duração do DM são fatores centrais na patogênese das complicações microvasculares e no desenvolvimento de aterosclerose.

Diante desse cenário, sob a perspectiva epidemiológica, medidas que busquem identificar precocemente indivíduos com diabetes mellitus, podem estar contribuindo para minimizar a carência de informações sobre número real de indivíduos acometidos, em especial aqueles assintomáticos que desconhecem estar sob os riscos advindos da hiperglicemia. O diagnóstico precoce deve ser sempre associado a medidas que garantam a oportunidade do cuidado adequado da doença identificada para que se alcance o objetivo maior do rastreamento que seria de prevenir em longo prazo grande número de procedimentos diagnósticos e terapêuticos dirigidos às complicações crônicas, hospitalizações, absenteísmo e invalidez que podem elevar substancialmente os custos diretos e indiretos da assistência à população diabética.

 

Referências

  1. Malerbi DA, Franco LJ. Multicenter study of the prevalence of diabetes mellitus and impaired glucose tolerance in the urban Brazilian population aged 30-69 The Brazilian Cooperative Group on the Study of Diabetes Prevalence. Diabetes Care 1992;15(11):1509-16.
  2. VIGITEL Brasil 2016. Brasil, Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não transmissíveis e Promoção da Saúde. VIGITEL Brasil 2016: Vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília (DF): Ministério da Saúde;
  3. Schmidt MI, Hoffmann JH, Diniz MFS, Lotufo PA, Griep RH, Bensenor IM, Mill JG, Barreto SM, Aquino EML, Duncan BB. High prevalence of diabetes and intermediate hyperglycemia – The Brazilian Longitudinal Study of Adult Health (ELSA-Brasil). Diabetology & Metabolic Syndrome 2014, 6:123.
  4. Atlas IDF 2017. https://www.idf.org/e-library/epidemiology-research/diabetes-html.
  5. Bahia LR, Araujo DV, Schaan BD, Dib SA, Negrato CA, Leao MP, et al. The costs of type 2 diabetes mellitus outpatient care in the Brazilian public health system. Value in health : the journal of the International Society for Pharmacoeconomics and Outcomes Research. 2011;14(Suppl 1):S137-40.